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Análise de AnimesAnimes Underground com Diferentes Estilos Artísticosresenharesenha críticaYoujohan Shinwa Taikei

A narrativa artística dos mundos paralelos de The Tatami Galaxy | Animes de Estilos Artísticos Únicos #6


Sobre
O anime conta a história de um narrador apenas identificado como Watashi (que significa "Eu"), estudante do terceiro ano da Universidade de Kyoto, que, insatisfeito com a maneira de como viveu os últimos dois anos, entra em um loop narrativo no qual revive os seus dois primeiros anos de formas diferentes repetidamente, em busca do que ele chama de “A vida cor de rosa no campus”, criando realidades paralelas que convergem em uma narrativa cíclica.

Análise
A proposta de The Tatami Galaxy - ou Yojouhan Shinwa Taikei no original - proporciona uma experimentação do que seriam várias possíveis escolhas e desdobramentos do protagonista em um quase confuso lapso narrativo que funciona de maneira simples do que parece. O anime foi feito pela Madhouse em 2010 com a direção do brilhante Masaaki Yuasa - diretor de animes como Devilman Crybaby e Ping Pong The Animation - sendo exibido pelo boco noitaminA em um total de 11 episódios.

A obra possui uma história relativamente simples, com uma execução ainda mais rica e simplória. Não foi a toa, por causa de sua grande expressão artística, ultrapassando as limitações tradicionais da TV que não se via desde o igualmente expressivo anime Sayonara, Zetsubou Sensei!, junto dos criativos movimentos de câmera, personagens e de suas próprias cores que o fizeram vencer o prêmio Japan Media Arts Festival em 2011 - recebendo um banho de elogios dos jurados da premiação. Não é a toa que este anime está entrando para nossa lista de Animes de estilos artísticos únicos.

Sua performance é tão diferenciada que se tornou popular entre o indie e o considerado hipster - o que logo fez a série chamar atenção de quase todos os tipos de públicos justamente por ser diferente, o que não muda o fato do anime ser de nicho específico. Logo nos primeiro episódio e ademais, a narrativa grotescamente rápida do protagonista sem nome -apenas "Eu" - já quebrava paradigmas e separava os meros telespectadores de animes mainstream de uma obra de cunho muito mais imaginativo-artístico do que o habitual. Sua narração pode ser considerada quase "atropelada", urgente: os diálogos rápidos se sobressaem, os climas e as cores mudam, pensamentos vão de encontro uns com outros e além nessa desvirtuosa aventura.

O loop temporal de cada episódio mostra como seriam os rumos do protagonista para cada decisão que ele tomasse diante da escolha de em qual club entrar. No final de cada capítulo os eventos acabam tomando rumos errados por algum tipo de conspiração ou força maior, e quando tudo está prestes a desmoronar o tempo é rebobinado de volta à escolha de Watashi sobre qual club seguir. Logo, a estrutura básica da narrativa do anime é: Watashi, entra em um club, conhece sempre alguns mesmos personagens, faz parte de algum incidente maluco que muda as rédeas da história drasticamente de forma com que tudo dê errado e então comece a se lamentar sobre suas decisões, uma após a outra. Ao final, ele tem a chance de recomeçar, e é sobre esse tema que o anime nos faz refletir de maneira maluca. Mais que apenas uma série hipster que extrapola nos conceitos de audiovisual, no fim das contas The Galaxy Tatami tenta empreender uma reflexão sobre nós mesmos e nossas atitudes. Ou a falta delas.
O fato do personagem principal não possuir um nome, ser apenas o "Eu", reflete como ele é parecido conosco - parece eu e você. A história mostra as variáveis oportunidades que temos ao longo de um tempo e as dificuldades encontradas em saber qual rumos seguir, e como é conflitante tentar tomar alguma atitude sem saber o que ocorrerá em seguir. O fator "e se..." é abusado de maneira tão humana que é impossível não parar e pensar nisso. Ao final de cada decepção, Watashi é posto a um novo mundo paralelo com as ambições de que desta vez conseguirá. O tempo volta, as folhas da história ficam brancas e prontas para serem preenchidas novamente, embora o loop faça com que Watashi erre e trilhe sempre caminhos diferentes e muito decepções para o desenvolvimento de algo maior.

Estas aventuras malucas e descompromissadas - que abusam do imaginativo, surreal, abstrato e do sentido figurado - acabam fazendo ligações entre si com alguns eventos relativamente repetitivos a cada episódio. E mesmo que a estrutura básica, os moldes, dos eventos aparentem serem iguais, isso não é de fato um problema por justamente ser uma competência do roteiro para aonde ele quer chegar afinal. A diversão e a forma de abordagem são mudadas a cada episódio, fazendo intra conexões interessantes 
Bela Akashi
Um dos pontos interessantes sobre a estrutura narrativa do enredo é a forma de ampla abrangência e inteligência quase fútil dos temas abordados de maneira rápida, como já comentado acima. Os diálogos e monólogos ocorrem de maneira tão rápida e interessante que fica honestamente difícil acompanhar as legendas no início - ao menos até você se acostumar -, e imagino que este tenha sido um ponto que fez muita gente dropar o anime durante seu lançamento. Um ponto forte quase genial de tão excêntrico. 

A fórmula "episódica" segue até os dois últimos episódios da série depois de muitos eventos caricatos e problemáticos, chegando finalmente no momento em que ocorre uma mudança abrupta dos eventos devido ao fato de agora protagonista agora se isolar em sua casa com um humor depressivo. Ele se tranca no quarto, composto de 4 tatames e meio, e quando tenta sair simplesmente não consegue. A magia do "Galaxy Tatami" finalmente faz sentido quando Watashi percebe que sempre que tenta sair pela porta de seu quarto, ele acaba entrando em outro de seu mesmo 4 tatames e meio. Cada um dos quartos pelos quais ele corre desesperadamente a fim de encontrar uma saída metaforicamente para seus problemas, já que ele está preso a si mesmo, têm uma realidade diferente do qual ele passou (ou não) durante a série. 
A obra proporciona, a partir deste momento, uma reflexão sobre o "Eu", o que se adere para todos os humanos em algum momento. A neurose e a frustração ligadas a suas frustrações durante "todos" os seus 2 anos, além da própria desilusão amorosa vivida, fazem com que "Eu" tenha uma viagem transcendental no universo de si mesmo, ainda que dentro de seu próprio quarto de 4 tatames e meio. É notório identificar aqui a grandeza que a produção artística visual exerce neste momento, uma vez que é única e particular; As expectativas advindas pelas realidades paralelas de Watashi se relacionam com a narrativa através de seus elementos cenográficos e psicologia de personagens, analogias e metáforas literárias além da própria cromática presente. Uma melancolia preta e branca toma conta totalmente dos cenários e ambientação da série, bem diferente das cores fortes e vibrantes que marcavam presença ao decorrer do anime. O panorama passa a mostrar o arrependimento do personagem por não ter conseguido, ou tido coragem, de fazer tudo que queria, por ter fracassado em seu desejo de querer uma "bela vida cor de rosa no campus" em sua juventude que está passando no exato momento. Com todo o desespero do mundo a reflexão pesa e na mais alta calmaria Watashi percebe várias coisas. 
O fracasso é de sua própria culpa, ou talvez das outras pessoas que indesejavelmente sempre apareceram durante suas aventuras? Watashi crítica a si próprio e começa a repensar sua vida e a sua forma de tomar - ou deixar de tomar - decisões.. A conclusão é clara. Não se deve viver um vida baseada no tal "e se...", no talvez, para depois um arrependimento mútuo cair sobre nossas cabeças. A felicidade, ou seja lá o que se procura e queira fazer, deve ser conquistada com determinação e sagacidade ao ponto de você se mexer e correr atrás disso. Fantasiar várias possibilidades, certas ou não, de nada contribuem para que você consiga o que deseja, mesmo com os grandes abalos que te tentarão derrubar-te durante o processo. O ideal, como bem mostra Watashi após suas reflexões e recuperação, é conhecer e reconhecer a si mesmo; seus limites, seus defeitos e peculiaridades, a fim de então encontrar um caminho correto para percorrer com a maior prudência possível.
Ainda que possa parecer trivial, o raciocínio que o anime aborda é sensato e muito funcional com todo o estilo artístico de que é proporcionado. O encontro final de Watashi com sua colega de faculdade, a quem ele tinha alguma paixão, foi praticamente uma última prova de que agora ele estava determinado a fazer seu próprio futuro, da sua maneira, sem ter nada do qual pudesse se arrepender. O desenvolvimento do anime em geral proporciona o processo certo para que todo o clímax final funcione e para que conceitos sejam revistos. Parece quase ridículo  o fato do anime não ter pontos fracos, mas é exatamente isso. Todos os detalhes, seja pelo visual ou roteiro, foram feitos de modo a repercutirem com o sentido figurado e agradar à forma artística. Achar bom ou não esses elementos expostos é apenas uma questão de gostos refinados que nem todos possuem.
Entrando nos pormenores da produção, nunca vi uma combinação tão boa quanto a da direção do Yuasa com os designs feito pelo ilustrador Yuusuke Nakamura - conhecido pelas ilustrações da famosa banda ASIAN KUNG-FU GENERATION, que por sinal marca presença na série com temas bem legais de abertura e encerramento. Os designs simples, mas singulares e muito bem estilizados, combinaram de maneira bem eficaz com a forma fluída e dinâmica com que a direção de Masaaki transforma a animação da série. Não menos ousado, o anime possui uma opção monocromática incrível de cores - com prestígio para os belos usos do vermelho e depois do preto e branco -, seus storyboards incríveis proporcionaram angulações e movimentações excelentes de câmera que visaram um dinamismo ainda maior dos eventos e momentos mais ativos. A tilha sonora composta por Michiru Oshima participa forma ideal com bons arranjos no anime; todos estes - e muitos outros - elementos vivos de audiovisual tornaram-se marcantes como característica da série junto do uso da metalinguagem. Não foi a toa que o anime também ganhou a Japan Media Art Festival como melhor animação, o que foi até então inédito para uma serie em anime regular de televisão.
The Tatami Galaxy é, sem dúvida, uma obra de arte em formato animado que proporciona uma espetáculo metalinguagem único; a realidade é extrapolada para seus limites e a narrativa nada convencional, porém de termos simples, diverte-nos com aventuras nada repetitivas de elementos iguais que fazem a maior parte da série até sua reflexão e clímax final. Este não é um anime para todos, possui um nicho para aqueles que realmente apreciam esse estilo mais artístico, figurado e metafórico de elementos 2D com uso de dinamismos fluídos e até designs simples - o que alguns chamam de "hipster". Em 4 tatames e meio, o anime é único e um dos poucos presentes na nova geração como uma excelente obra que transborda conteúdo e audiovisual.

Direção: 10/10
Roteiro: 9/10
Produção Visual: 10/10
Trilha Sonora: 8.5/10
Entretenimento: 9/10

Nota Final: 9.5/10 (Excelente / Obra-prima)

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