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Life! Uma Realidade Obscura | Review


Viver... Sobreviver ou estar apenas Viva são formas diferentes de levar a vida. Ou você age como se estivesse livre, ou está lutando por algo... Ou então apenas se contenta em misturar-se à maioria. 

Life!

Life é um mangá publicado de 2002 a 2009, escrito por Keiko Suenobu. Trata-se de um Shoujo dos gêneros Drama e Vida Escolar, que centraliza sua atenção em temas delicados como o a automutilação, bullying, violência doméstica e etc... Pesado, não? Porém necessário! 

A história segue a vida da jovem Ayumi Shiiba, que a fim de cursar o primeiro ano no mesmo colégio de uma amiga, recebe a ajuda dessa amiga para estudar e conseguir ser admitida em determinada escola. Porém, apenas Ayumi atinge a nota exigida para a admissão em tal colégio, deixando sua amiga com tanta raiva e inveja que culpa Ayumi por não ter conseguido. Emocionalmente abalada, Ayumi passa a fazer cortes em si mesma, fazendo disso um habito. 

Se culpando e não querendo machucar mais ninguém, Ayumi Shiiba tenta se fechar, entretanto não demora em aparecer alguém querendo se aproximar, essa é Manami, uma menina aparentemente doce e alegre que facilmente conquista Ayumi. Aos poucos, as mascaras de seus colegas começam a cair conforme Shiiba vai se aproximando das pessoas e as coisas se desenvolvem para um caminho doloroso. 
Não é Spoiler dizer que a personagem principal vai sofrer bullying, afinal o mangá é voltado para este assunto, mas deixando alguns detalhes a serem comentados depois, é importante traçar uma linha entre a ficção e a realidade. Provavelmente, para nós brasileiros, ler esse tipo de material pode soar até mesmo um pouco exagerado, não é mesmo? Por exemplo, a personagem tem sua mesa arremessada pela janela da sala aula; é colocada dentro de um saco de lixo no banheiro; chega em casa suja e com as roupas rasgadas; têm seus cadernos destruídos e rabiscados...

Como pode as pessoas em volta, como os professores, pais, os outros alunos da escola ou colegas de classe ignorar essas coisas? 

No relato de um dos personagens, ele conta que até mesmo era obrigado a ficar nu na frente de seus agressores. Há coisas entre essas que são difíceis de acreditar que são realizadas por crianças. Mas o triste é que, todos esses atos foram baseados em relatos reais, e pior, comuns!  
Segundo os dados do PISA 2015 realizado pela OECD, o Japão se encontra com um porcentual acima da média nas categorias concernentes ao bullying, sendo 8.9% (mais que o dobro da média) relacionado a agressões físicas. O pior é que, mesmo com uma fama ruim por ter um índice alto de intimidação escolar, há países com percentuais semelhantes ou ainda maiores.

Eu gostaria de dizer que felizmente o Brasil se encontra abaixo da média, mas isso não quer dizer que esse tipo de coisa não seja frequente por essas bandas. Por um lado, diferente do Japão, somos um povo muito diversificado por conter muitas origens, nós nos acostumamos e crescemos com as diferenças, mas ainda assim há bullying por causa de diferenças sociais, ou o mais frequente, intrigas ocasionadas por relacionamentos e o mais recente que está relacionado com opiniões politicas, que tem ocasionado cada vez mais relatos de perseguição e agressão física ou verbal, principalmente em faculdades.

Independente da razão, o fato é que segundo os dados do PISA, mesmo com um dos mais baixos índices de bullying, a estimativa ainda é de que 1 a cada 10 estudantes são intimidados na escola. Acham pouco? Se para cada criança, há um agressor diferente, a estimativa também ficaria de 1 a cada 10, isso se ignorarmos o fato de que muitos desses atos podem ser causado por mais de uma pessoa e até mesmo um grupo. Agora sim, dá pra notar que mesmo com um porcentual baixo, são números preocupantes. É por isso que falar deste assunto é sim muito importante para nós, talvez as coisas não sejam tão sérias como no Japão, pois só de pesquisar sobre o assunto me deparei com imagens e vídeos chocantes sobre o que acontece por lá, mas não podemos ser ignorantes e pensar que algo assim não esteja ocorrendo por aqui.

Mas como combater isso? É possível que um mangá possa ajudar em algo? 
Muita gente acha que as mídias de entretenimento servem apenas como passatempo e diversão, mas isso não é verdade. Há muitas obras que usam esse caminho para trazer assuntos que precisam ser refletidos, debatidos, e também fazer denuncias ou até mesmo ensinar algo. Life não é diferente, o mangá traz à tona a realidade das escolas japonesas e critica seriamente a conformidade dos professores e diretores que muitas vezes fingem não ver o que está claramente acontecendo, ou até mesmo são os culpados por algum aluno estar sofrendo maus-tratos. Chega a ser difícil acreditar de tão irritante que é a situação a qual Shiiba passa durante a história... Bom, não moro no Japão para saber o quão verossímil o mangá chega a ser, mas as estatísticas condizem com a gravidade desse problema. Por exemplo, em 2016 houve mais de 200 mil relatos de bullying e todo o ano uma média de 300 jovens tiram suas vidas. Esses números vêm aumentando cada vez mais e agora, com a era digital, as intimidações também tem se espalhado pelas redes sociais.
Sendo realista, não há como filmes, livros, mangás e etc, mudarem isso não importa quanto material sobre este assunto seja produzido, é inconcebível. Mas por menor que seja a eficiência de uma mídia ao tentar fazer as pessoas terem consciência de algum assunto delicado, isso ainda pode fazer uma grande diferença na vida de alguém. Nesse ponto, Life pode não ser tão eficaz quanto a outras obras que abordam o tema; por exemplo, Koe no Katachi tem uma sensibilidade muito maior tornando-o mais comovente. No entanto, Life pode acabar funcionando muito bem como material de encorajamento, pois, mais do que alertar sobre as cicatrizes que o bullying causa, o mangá chama muita atenção para a atitude e a diferença que faz na vida da vitima saber que não está ela não está sozinha.
Um personagem chamado Sonoda faz o papel de exemplificar isso, ao tomar a decisão de defender Ayumi. Claro que ser a primeira pessoa a tomar uma atitude não é fácil, requer muita coragem, mas como uma reação em cadeia outras pessoas acabam encorajadas. Outro importantíssimo ponto que Life nos faz refletir bastante é sobre o apoio. Dessa vez quem exerce o papel de amiga é Hatori, uma das personagens principais. E bem, há algumas coisas interessantes sobre ela.
Hatori é uma das melhores estudantes da escola, aparecendo sempre entre os primeiros no ranking de notas dos exames. Porém, ela não é uma aluna com presença regular no colégio. Ao longo da história, o que exatamente se passa pela cabeça dessa personagem não é mostrado e isso implica num déficit de desenvolvimento explicito. O que é mostrada é sua condição social, como: ter diferentes trabalhos durante o dia; um pai doente que não pode trabalhar; morar em um apê minúsculo e caindo aos pedaços. Apesar disso, ela tem uma aura de liberdade por conta de seu espirito independente, isso por que é uma personagem que está vivendo a sua vida. 
A principio, eu pensei que estava faltando algo nessa personagem e talvez realmente tenha faltado, mas tentando entender o seu papel na história, observa-se que, ao longo do tempo em que ela foi se aproximando da Ayumi, ela não mudou sua rotina, não ficou mais frequente na escola para ajudar sua amiga e nem ficou se colocando à frente para protegê-la todas as vezes. É inegável que Hatori e Ayumi desenvolveram uma amizade muito profunda, mas talvez no começo tenha sido apenas solidariedade dela ao ver Ayumi desesperada, porém esse foi um fator determinante para dar força e evitar que Shiiba se quebrasse por completo. Ainda que tenham passado juntas por alguns problemas, percebi que a maior ação de Hatori e sua grande função na história foi não deixar Shiiba sozinha. Olhando por este lado, ela não teve de se tornar uma babá ou deixar de fazer seus trabalhos, ela fez apenas o que estava ao seu alcance como um suporte e o mais importante, ser uma amiga, e escutá-la. Isso deu motivos para Ayumi continuar lutando. 
Traçando um paralelo com a realidade, muitas vezes deixamos de agir por achar que algo pode tomar um tempo que gostaríamos de gastar com nós mesmos, o pior é que professores também podem encarar as coisas desse jeito e decidirem ignorar um aluno que precisa de ajuda por achar que está ocupado demais. No entanto, dentro de um ambiente social, todos estão aptos a fazerem algo, não só para ajudar alguém, mas também para se opor à quem está fazendo mal à outra pessoa. Às vezes, estar abrindo a mão de algo para dar atenção para uma pessoa passando por problemas como o bullying pode até mesmo salvar a vida dela.
Hatori e Sonoda são dois dos principais pontos altos de Life, porém cabe a Ayumi, como vítima, tomar partido para se defender. Não é sempre que os amigos dela estão por perto, por isso ela precisa aprender ao longo do tempo a defender a si mesma e lutar para que as pessoas acreditem nela. Esse talvez seja um dos pontos cruciais para uma vítima de bullying, não é fácil lutar contra a vergonha e o medo, ainda mais que a autoestima de qualquer um é destruída nessas situações. Mas admitir aos pais, professores e colegas de classe que está sendo intimidado, por mais que pareça ser, não é algo para se envergonhar. A única pessoa que está passando vergonha é o próprio agressor, sendo assim, denunciar e procurar ajuda demonstra coragem.

Ayumi sofreu bastante durante uma parte do mangá até se dar conta que precisava lutar por si mesma, a partir do momento em que ela começou a se levantar as pessoas começaram aos poucos a serem comovidas e antes que pudesse notar, já havia muitas pessoas do seu lado.
Sobre o mangá
Deixando um pouco de lado o assunto sobre o bullying, Life é um mangá muito bom, com pontos muito positivos. Um deles é o desenvolvimento. Keiko trabalha muito bem o ponto de partida da história, desenvolvendo primeiro a personalidade da protagonista e um pouco do relacionamento dela com outros personagens. E a autora não tem pressa com isso, ela vai aos poucos montando o palco para seu clímax a cada capítulo. Ayumi permanece se desenvolvendo durante a história, mas até uma parte ela vai se degradando e na outra tendo que superar tudo pelo que passou e continua passando. Também interessante é o desenvolvimento do ódio de sua agressora, que vai sendo alimentado cada vez mais até alcançar níveis extremos.

O ritmo é muito bom, há acontecimentos bem detalhados e a autora consegue mantê-lo, não deixando que algo se prolongue demais ou que haja alguma quebra com diálogos longos e chatos, ou momentos tediosos. Mas, o enredo acaba saindo do trilho duas vezes. Uma está relacionada ao namorado de Manami, Katsumi, e sua perversão. Mesmo que os acontecimentos sejam diretamente relacionados a todo o desenvolvimento, a autora não se aprofunda direito no personagem e ele acaba tendo uma construção confusa ao longo da história, resultando em um desfecho irritante. Ainda no personagem, há uma relação agressiva dele com seu pai, insinuando que a personalidade do garoto é culpa da violência doméstica, mas assim como a forma que o personagem se encontra no final, seu relacionamento com seu pai se resolve de uma forma tola e apressada que não condiz em nada com o bom trabalho da autora com o progresso da história e os personagens principais. 

Seu outro tropeço se encontra nos eventos do hospital abandonado. Talvez seja uma dificuldade de impor limites ou apenas uma momentânea crise criativa que levou Keiko a esse problemático episódio. Ali há um desenvolvimento a longo prazo, mas o uso desnecessários de coincidências acabou gerando buracos no enredo e empobrecendo ainda mais o arco. Uma situação que é importante ressaltar e que já vi outros mangás também cometerem os mesmos erros é o de colocar um personagem agindo por conta própria, sem chamar a policia, quando outras vidas dependem dele. Este é um erro gravíssimo!!! 
Passando esse arco, os acontecimentos meio que entram em esquecimento, deixando de se aproveitar muita coisa. 

Há algumas decisões na história que poderiam ter ido por um caminho diferente e mais maduro. Mas ainda é importante lembrar que, mesmo se focando muito no tema do bullying, Life também é um entretenimento e voltado para o público adolescente e feminino, então tem algumas doses de melodrama e uma ação ou outra. Porém, a autora consegue expandir a atratividade de sua obra, trabalhando o psicológico de seus personagens e situações de extrema tensão.

Por exemplo, o ódio de Manami vai consumindo-a cada vez mais, causando gradativamente uma deturpação crescente em sua mente, mas são os imprevisíveis acontecimentos expositivos que explora profundamente a degradação da personagem quando esse seu ódio se mistura com muitos elementos traumáticos.
Entretanto, a personagem é complexa e soa confusa diversas vezes. Nós como leitores acabamos entrando numa brincadeira emocional sobre o que sentimos por ela, seja o ódio, as vezes pena e em algumas situações, o medo.
Ao mesmo tempo em que a personagem é usada para associar o ódio com uma doença corrosiva, ela não traça o perfil comum de um adolescente mimado e muito menos o de um agressor estereotipado. Aos poucos, a psicopatia da personagem vai ficando cada vez mais evidente, como sua falta de emoções para com os outros, a manipulação, o desprezo e a falta de arrependimentos... Yes, temos uma Liebert em potencial.
Bem, talvez é aqui que ganho a atenção da maioria para este mangá. Life tem uma das maiores tretas pra quem gosta de ver o circo pegando fogo. N-O-S-S-A! Esse mangá tem seus momentos tapa na cara e turn down for what, que eleva nossa empolgação, mas a sequência de eventos que se desencadeiam perto do final são de tirar o folego. A escola sai totalmente do controle e há quadros que se fossem animados ficariam perfeitos em slow motion com uma música tribal, pois a selvageria natural dos humanos é colocada em evidência. 
Se do ponto de vista do agressor é ensinado que tudo o que se faz de ruim, recebe em dobro, no ponto de vista geral a autora também aproveita para deixar sua crítica implícita sobre o escapismo, mostrando que não importa quem, as pessoas em geral tendem a liberar seus estresses e se divertirem quando há um alvo para isso. 
Life acima de tudo questiona muita a forma como vivemos apresentando, assim como no texto no inicio do post, três formas de se levar a vida. Uma delas é “Viver”, desempenhado por Hatori que segue fazendo as coisas por si mesma sem depender de alguém. A outra, “Sobreviver”, fica a cargo de Shiiba, que luta não apenas contra o bullying, mas também contra si mesma para evitar a autodestruição e deixar de ser muito dependente. Por fim, apenas estar viva, cai na extrema dependência de Manami e a conformidade de muitos outros personagens, como os professores. Assim como em histórias de Zumbis, ser diferente é como um sobrevivente batalhando arduamente para não ser devorado. E que outra opção resta senão lutar?
Sempre é bom parar para refletir, tentar compreender nossas falhas, as falhas dos outros, e como individualmente podemos evoluir. Acima de tudo, é muito importante buscar o respeito pela vida, tanto pela nossa quanto a dos outros. Quebrar essa lei básica é o primeiro passo para a infelicidade.

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