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Análise de MangáDesabafos e devaneios sobre Oyasumi PunpunGuestPostOyasumi Punpun

Desabafos e Devaneios sobre Oyasumi Punpun | #GuestPost 01

Autor do Texto: Wendel Santos.
Honestamente, eu acredito que quem costuma consumir obras em geral, seja de qual mídia for, cedo ou tarde, possuirá alguma obra que conseguirá ficar marcada em sua vida. E não apenas por fator nostálgico ou algo do tipo, mas pelo fato dela conseguir mudar ou repensar alguma visão ou perspectiva de algo, seja sobre o mundo ou até sobre si mesmo. E geralmente falar sobre essas obras se torna uma tarefa curiosamente mais difícil do que se imagina, seja pela aflição de não conseguir transmitir algo que faça jus a obra, ou simplesmente pelo fato de que, às vezes, palavras não parecem ser suficientes para expressar tudo o que determinada obra representou em nossas vidas. Mas ainda sim, eu tentarei expressar isso. Não apenas porque Oyasumi Punpun é a minha obra favorita, mas por ter outros fatores que considero que sejam importantes de serem comentados e debatidos. E que devido a isso, ela deveria ser uma obra que todos deveriam ao menos dar uma chance, mesmo que possa não agradar a todos. Dito isso, é hora de falar da conturbada e trágica odisseia de Onodera Punpun.
Admito que a primeira vez que eu tive contato com essa obra, eu não tinha grandes expectativas com relação a ela, já que a única coisa que eu sabia era que a premissa contaria a história do seu protagonista, desde de sua infância até a sua fase adulta (mais especificamente, dos 11 até seus 21 anos de idade). Algo que para mim, não chamou nem um pouco a atenção e me deixou com um certo pé atrás, pelo fato de que ela poderia se render a conflitos simplórios e mensagens clichês. Mas ao mesmo tempo, ela também conseguiu me deixar um tanto curioso. Aliás, em meio a tantas obras sobre coming of age, por que logo ela era tão aclamada e tão reconhecida? E conforme eu fui lendo, a resposta não demorou a vir. Afinal, se em mãos erradas, essa história poderia se tornar mais uma obra genérica sobre os conflitos adolescentes, Inio Asano a transforma em um retrato perturbador da nossa juventude atual e todos os seus dilemas.
A primeira coisa que me chamou a atenção enquanto eu lia foram seus personagens, que são incrivelmente humanos, no sentido mais literal da palavra. E quando eu digo isso, não é apenas pelo fato deles cometerem erros e terem atitudes questionáveis, mas também por todos os seus sonhos, objetivos e dilemas serem extremamente críveis e palpáveis. Como tentar conquistar um emprego, buscar independência social ou simplesmente tentar descobrir qual seu sonho ou objetivo de vida, já que tem personagens que não tem sequer isso. Todos os personagens de Punpun poderiam facilmente ser pessoas que você encontra transitando nas ruas em nosso dia a dia, por terem dilemas bem reais, e consequentemente, os erros que esses personagens cometem, são erros cometidos por diversas pessoas em nosso cotidiano. Sem contar no fato deles não serem personagens binários ou superficiais, devido a bela construção que cada um possui. Mostrando que aquele personagem que você sempre achou desprezível, poderia ter sido capaz de uma atitude muito mais nobre do que você sequer imaginou e vice-versa. Afinal, não existe maniqueísmo aqui, mas sim, pessoas que tomam decisões e fazem escolhas e sofrem as consequências das mesmas, sejam elas boas ou ruins.
Em Nijigahara Holograph, Asano cria uma passagem aonde determinada personagem fala que existem pessoas que vivem como se tivesse uma espécie de esgoto dentro de si. Aonde não importa o quanto você tente esconder ou esquecer, ela ainda permanecerá lá, na parte mais profunda de sua alma. Ler Oyasumi Punpun é simplesmente reconhecer que você talvez possa ser uma dessas pessoas. É ter que enfrentar diversos fatos e refletir sobre determinados temas que geralmente evitamos pensar, tanto por medo quanto por pura conveniência. E na pior das hipóteses, ter que reabrir certas feridas que custaram a cicatrizar. Ou até mesmo perceber que talvez elas nunca tenham cicatrizado. É simplesmente refletirmos e nos darmos conta que haverá certas coisas que nunca mudarão. E as que mudam, nem sempre será, necessariamente, para melhor. Que há determinadas coisas que talvez nunca poderemos conquistar, não importando quanto esforço ou empenho nós coloquemos, e que talvez desistir possa ser necessário, para que assim, possamos nos focar em outras coisas que talvez possam dar certo. Que o seu grande sonho ou objetivo que você tanto almeja, talvez não consiga lhe dar a realização que você tanto procurava, pelo fato dele não ter compensado os sacrifícios feito para realiza-lo. De que talvez possamos ser apenas mais um no meio da multidão. E de que em vários momentos, só poderemos contar apenas com nós mesmos.
Logo, Punpun não é uma obra feita para lhe confortar ou lhe deixar aliviado com alguma lição de moral feliz e otimista. Pelo contrário. Em alguns momentos, ela pode se tornar bem difícil de ser lida, não pelo fato dela ser hiper complexa (mesmo que ainda possua certos simbolismos), mas pelo simples fato de seus princípios, valores morais e objetivos de vida serem colocados à prova a todo momento, testando a sua convicção para segui-los ou cumpri-los. A obra consegue sempre colocar você contra a parede, mostrando algo bem simples e óbvio, mas que ainda sim, consegue soar muito assustador, que é o fato de que toda ação gera uma consequência, não só para você, mas até mesmo as pessoas ao seu redor. E que não importa qual for a decisão que você tome, você terá que enfrentar o resultado depois. E que isso é algo inevitável, já que mesmo que você escolha fugir, o fato de você não tomar uma decisão, ainda será uma grande decisão, já que nunca terá como evitar isso.
Mas mesmo com tudo isso, é impressionante como a obra ainda sim, deixa brechas aonde é possível extrair uma mensagem esperançosa no meio disso tudo. E esse acaba sendo um dos motivos de eu achar essa obra tão incrível. Afinal, por mais depressivos e pesados que os mangás do Asano sejam, eles nunca são desesperançosos, sempre mostrando que ainda existe uma luz no fim do túnel. Mas a questão é que essa mensagem de esperança nunca é transmitida de uma maneira convencional com o qual a maioria das pessoas estão habituadas, já que infelizmente, a vida nunca é tão simples dessa forma. Um grande exemplo é de como a obra mostra que você sempre deve lutar para superar seus traumas e dilemas, mas não porque você encontrará um pote de ouro no fim do arco íris, já que problemas sempre existirão, mas pelo fato de que se você não lutar contra isso, pode acabar no mais fundo dos poços, incapaz de sair dele. Mostra que é importante você criar e seguir seus princípios até o fim, mas não porque você ganhará reconhecimento ou se tornará um exemplo a ser seguido na visão das pessoas, mas pelo fato de que se você não os tiver ou quebra-los, você pode se transformar no tipo de pessoa que você sempre desprezou. De que aquela atitude que você achava ser a grande prova da sua força, talvez não fosse nada mais que a extensão de sua própria fraqueza, que consequentemente, deixou sequelas que perduram até hoje, e de que enquanto você não for capaz de reconhecer e aceitar isso, nunca será capaz de seguir em frente. Ao invés de tentar mostrar as vantagens da superação e da persistência, Punpun mostra a consequência da estagnação e da desistência, da maneira mais dura e crua possível. Mostrando o que acontece quando você é consumido por completo por seus conflitos internos ou quando você abre mão de todos seus princípios que lhe moldam como pessoa em prol disso. E que o resultado pode ser muito mais grave do que se aparenta.
No fim, mais do que uma obra de drama, Oyasumi Punpun foi para mim, quase que uma experiência de autorreflexão. Foi a obra que me fez questionar diversas atitudes e valores que eu possuía, me fazendo mudar e repensar diversas coisas como pessoa, tanto que o que foi citado aqui, é apenas uma parte de tudo o que o manga pode lhe oferecer. Claro que existe outras obras que de certa forma, também conseguiram isso, mas nenhuma conseguiu ser tão intensa e mexer tanto comigo quanto Punpun. Óbvio que isso não quer dizer que as pessoas que forem ler a obra terão a mesma experiência. Tanto que houve pessoas que não gostaram dela por acharem exagerada, extremamente dramática ou simplesmente por ser muito depressiva. Mas uma coisa é certa: é praticamente impossível ficar indiferente ao ler Oyasumi Punpun. E uma das principais razões, é uma frase que para mim, consegue representar muito bem tudo o que a obra representa, aonde citam que enquanto a maioria das obras tem como objetivo fazer você fugir da realidade, Oyasumi Punpun é uma obra feita para você enfrentar a realidade. E talvez seja por isso que cada pessoa tenha uma visão tão distinta sobre ela, já que cada um tem sua própria visão sobre o mundo e sua própria maneira de enfrenta-lo. Logo, nada mais normal do que isso ser refletido durante a leitura, aonde esse fator contará bastante para a sua interpretação final da obra. Tanto que devido a isso, Punpun consegue ser uma obra muito mais ampla do que aparenta, já que são diversas mensagens aonde uma poderá ter mais peso que outra, dependendo da sua experiência de vida. Graças a isso, não hesito em dizer que Oyasumi Punpun foi a leitura mais dolorosa e complicada que eu li até hoje, já que para mim, enfrentar a realidade, e consequentemente, a mim mesmo, sempre será uma das ações mais difíceis e dolorosas de fazer. Mas talvez seja por esse motivo, que ela ainda continue conseguindo ressoar nas pessoas. E que mesmo com o passar do tempo, continua soando quase como algo atemporal, conseguindo permanecer extremamente atual até hoje. Não apenas por abordar um assunto em específico, mas por fazer que nós consigamos, de certa forma, enfrentarmos a nós mesmos.

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