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Como a Arte e a Narrativa de Mamoru Oshii Implodem | Matéria

O que no campo da arte te compele? Dinamicidade ou nuncia? Decadência ou a gloria? Certamente há algo. Particularmente, o caos e o silencio são o que me coagem. Da casualidade despreocupada, ao silencioso cinismo de filosofar sem fim, existe um mestre dessa arte, morando no primeiro degrau - Mamoru Oshii. Deslumbrante é o titulo pontual para a arte desse diretor; poucos espremem tão brilhante fundamentos da 'narrativa' e 'narrativa visual'Talvez me falte superlativos para falar sobre a habilidade de pêndulo do Oshii. 

O destino desse meu artigo é justamente investigar os seus experimentos visuais e narrativos (não se preocupe, irei falar o minimo possível sobre o remoído Ghost in the Shell) e as formas engenhosas com que ele leva o espectador as margens de suas pinturas - dito isso, vamos lá.

Há muitos títulos importantes dos últimos 30 anos que podemos associar ao nome de Mamoru Oshii. No entanto, o autor e suas obra se dividem, às vezes desagradando com sua abordagem muito contemplativa do cinema. Onde alguns adulam seu trabalho, outros acionam "qualidades não qualidades", como "pretensioso" ou "entediante" - embora seja difícil para mim endossar esse tipo de alegação, afinal seu trabalho realmente não é totalmente acessível, deixando muitas pessoas do lado da estrada. Especialmente porque seus ganchos são sempre bastante atraentes para o público em geral: pessoas lutando com equipamentos robóticos, ciborgues conduzindo investigações policiais, jogos de sobrevivência durante batalhas virtuais, confrontos entre esquadrões aéreos... e assim por diante. A estrutura dos filmes do Oshii vem de suas referências - ele é um fervoroso amante do cinema polonês e da, globalmente psicológica e introspectiva, nova onda européia. Entre os nomes que ele cita, encontramos Andrzej Vajda, Andrzej Munk, Jerzy Kawalerowicz, Ingmar Bergman ou o excelente filme La Jetée, de Chris Marker. Podemos também adicionar Andrey Tarkovsky. 

Além disso, não é tão difícil notar que o trabalho do diretor e escritor japonês é atípico, singular e delicado de acessar. Por um lado isso se deve, por sua execução, que geralmente é organizada de acordo com a seguinte construção: Uma introdução espetacular seguida de um desenvolvimento que parece suspenso no tempo, melancólico, musical e quase silencioso e, por fim, um final feito de resolução(es) sob tensão até o clímax, levando a um questionamento filosófico. Por outro lado, isso se deve também pela orientação filosófica muito característica de seus cenários. Mamoru Oshii é considerado hoje como um vanguarda na esfera da ficção científica (mesmo trabalhando em uma variedade de gêneros), que ele usa regularmente como uma ferramenta para questionar o nosso futuro, a própria noção de humanidade ou a mutação do indivíduo em relação a para com o grupo. 
>Jin-Rou (1999)  >ArtD: Hiromasa Ogura
Oshii ganhou, merecidamente, o status como escritor de anime. Ele não apenas dirige filmes e series para televisão; ele usa mídia do cinema e animação para expressar sua visão única do mundo. Embora seus filmes abranjam vários gêneros, eles são capazes de manter elementos visuais semelhantes e discutir temas comuns. Uma das razões pela qual os seus filmes têm tal conexão é a constância de seus colaboradores, especialmente o compositor Kenji Kawai e o roteirista Kazunori Itō. Kawai conheceu Oshii no set de The Red Spectacles, e desde então Oshii usou ele para marcar todos os seus filmes. A dupla trabalhou junto por tanto tempo que, segundo Kawai, eles não precisavam mais se comunicar. Um já sabia o que o outra queria. Kazunori também trabalhou muito com Oshii, escrevendo roteiros para muitos de seus trabalhos, incluindo os dois filmes de Patlabor, Ghost in the Shell e Avalon. Eles começaram sua parceria, servindo como membros cabeça no projeto OVA de Patlabor (Kidou Keisatsu Patlabor, 1988). Oshii deu uma declaração, após a conclusão de Avalon, que não acha que irá voltar a trabalhar com ele. 

Essa continuidade nas equipes de trilha sonora e de roteiro permitiu que Oshii mantivesse uma continuidade harmônica em significado e estilo. Em geral, seis temas se repetem em cada filme do diretor; e poderemos ver como visual e narrativa se aglutinam:

1- RuínasImagens de paisagens urbanas decadentes são um elemento comum nos filmes do Oshii. Algumas cenas no primeiro filme de Urusei Yatsura pressagiam isso, mas o uso de ruínas do Oshii não se torna predominante até o segundo filme de Urusei Yatsura. Cidades e paisagens decrépitas são apresentadas em quase todos os seus filmes subsequentes, desde a cidade abandonada de Tenshi no Tamago até a degradação de Avalon. Oshii mostra-se completamente como um homem da cidade, expressando grande preocupação com a sobrevivência da humanidade urbana. 
>Tenshi no Tamago  >ArtD: Shichiro Kobayashi, Yoshitaka Amano
2- Pássaros, peixes e cachorros: Oshii é um grande amante de animais, e eles são um motivo recorrente em muitos de seus filmes. Os peixes são caracterizados como objetos iminentes nos lagos e edifícios em Tenshi no Tamago, e há sombras de carpas do tamanho de aviões nadando nos céus. Aves, mais especialmente suas penas, são destacadas nos dois filmes de Patlabor, Ghost in the Shell e em Tenshi no TamagoOs peixes e as aves, especialmente porque ambos parecem ter a propensão para o vôo nos filmes do Oshii, talvez sejam um símbolo de uma sensação de liberdade do mundano. Cães, especialmente os amados Basset Hound do Oshii, aparecem em vários de seus últimos filmes e representam o próprio diretor. Mamoru não se considera um cachorro como uma mera metáfora. Seu amor e identificação com animais é lendário; ele até desenhou caricaturas de si mesmo como um cachorro. Como o personagem Haruko afirma em um episódio da série para tv auto-referencial FLCL, “Diretores de animes gostam de gatos porque não precisam cuidar deles. Você sabe, eles nem conseguem se cuidar. Oshii é provavelmente o único diretor que adora cachorros. Ele acha que ele mesmo é um cachorro. ” (Fim do episódio 2 'Firestarter' durante a pré-visualização do episódio 3.)

3- Sonhos: A confusão dos sonhos com a realidade é um dos principais temas nos filmes do diretor. Sua primeira exploração deste tema, no filme Urusei Yatsura: Beautiful Dreamer, apresenta um mundo em que os sonhadores não percebem que estão sonhando. A confusão dos sonhos com a realidade aparece novamente em Tenshi no Tamago e Twilight Q. Oshii depois expande esse tema de confusão para examinar o papel que a tecnologia desempenha na alteração da realidade de nossas vidas diárias.

Em Ghost in the Shell, o cérebro de um homem é hackeado e ele recebe memórias de uma vida que nunca teve; aqui a tecnologia serve para confundir a linha entre o que é real e o que não é. Da mesma forma, no final de Avalon, a protagonista deve escolher entre a “realidade” gerada por computador na qual ela se encontrou e a realidade que ela conhecera até então. 

Embora os sonhos sejam um tropo que ele emprega com frequência, Oshii afirmou que está mais interessado em mostrar como os sonhos ajudam a moldar a realidade do que em tentar distinguir os dois. Oshii disse: “Eu nunca diferenciei a realmente dos sonhos e sonhos da realidade. Quer dizer, pode ser minha imaginação ou interpretação, mas acho que é assim que os cães vivem. Um cão realmente não se importa com quem é, desde que saiba quem precisa viver e quem está ao seu redor. Além disso, ele não precisa saber de mais nada. ” 
>Patlabor (1989)  >ArtD: Hiromasa Ogura
4- Hardware militar e tecnologia Cyborg: Embora os filmes do Oshii possam ter uma inclinação filosófica para esses elementos, muitas vezes eles são visualmente fundamentados em uma realidade tecnológica. Por exemplo, em preparação para o projeto de Ghost in the Shell, a equipe viajou para Guam, onde eles dispararam armas reais, a fim de animar mais realisticamente o desempenho de tais armas. (Devido às rigorosas leis de controle de armas do Japão, tais testes de armas não seriam possíveis naquele lá). O fascínio do Oshii pelo hardware militar e pela parafernália pode ser visto no segundo filme Urusei Yatsura, onde os personagens principais montaram uma cafeteria com temática da Segunda Guerra Mundial para o festival da escola, contendo varias regalias militares e um tanque real. Uma coluna de tanques faz uma aparição em Tenshi no Tamago, e a tecnologia militar é um dos principais elementos dos filmes de Patlabor e de Ghost in the Shell. Uma das razões pelas quais Oshii filmou Avalon na Polônia foi o baixo custo e facilidade de acesso a muitas armas, tanques e helicópteros. 

5- Religião e Mito: Quase todos os filmes do Oshii têm alusões ou fazem uso de elementos de religião e mitologia. Mesmo desde tenra idade, Oshii tinha interesse em diferentes religiões. Embora não tenha sido criado como cristão, ele considerou frequentar o seminários não para se tornar um padre, mas simplesmente para estudar mais a religião. Muitas alusões aos mitos japoneses podem ser encontradas nos filmes Urusei Yatsura, e Avalon é estruturado em torno de elementos da lenda arturiana. No entanto, o cristianismo é a religião que Oshii mais usa e alude em seus filmes; tais referências formam um componente básico de Tenshi no Tamago, e até em Alone Complex 2nd

6- Controle e Vigilância: Questões de privacidade e vigilância estão intimamente ligadas ao progresso da tecnologia nos filmes do Oshii. À medida que a sofisticação tecnológica aumenta, as preocupações de que a privacidade será destroçada surgem. Por exemplo, em Ghost in the Shell, o personagem principal é um ciborgue que trabalha para uma seção especial do governo. Embora ela seja teoricamente livre para fazer o que quiser, o governo possui seu corpo e suas memórias. Através dessa personagem, Oshii mostra que, à medida que a tecnologia se torna uma parte maior de nossas vidas cotidianas, ela pode nos inscrever dentro de novos círculos de controle. Questões tecnológicas semelhantes aparecem nos filmes de Patlabor e em Avalon. Mamoru problematiza a progressão da tecnologia de forma muito tecnológica, através do uso de sofisticadas animações por computador. Ele examina as quedas da tecnologia sem sucumbir à paranoia ou parecer um ludita. Sua resposta à tecnologia invasiva é bastante divertida; a tecnologia pode ser resistida através de sua própria subversão. 
A maioria dos elementos são evocados em contraste, através de sombras quebradas apenas pelos contornos vagos do que pode realmente estar lá.
Podemos observar melhor esse entrelaçamento entre visual e conteúdo no portfólio de Mamoru. Uma das minhas obras Oshii preferidas, Tenshi no Tamago, é uma produção quase inacreditavelmente bela, e sua imponente procissão evoca um mundo rico e específico. O filme retrata um mundo em declínio; um personagem na obra até reflete sobre como o mundo deles poderia muito bem ser uma arca que esqueceu que o mundo inundou, e cada quadro do filme faz com que pareça uma teoria inteiramente válida. A cidade é provavelmente o “personagem” mais vívido do filme - cheio de becos sinuosos e postes de iluminação, parece até a eterna Cidade Perdida como descrita por Lovecraft, um lugar esquecido pelo tempo, mas de alguma forma ainda vivo, e incutido na sensação de estar sendo observado. Quase não existem diálogos aqui. É a obra máxima da narrativa visual. 

Outro ponto de parada que se faz relevante é Patlabor. Estendendo seu discurso bíblico sobre Tenshi no Tamago, a primeira parte de Patlabor (1989) aborda a noção de imortalidade através de um arquiteto que pensa que é Deus, e a punição divina que se segue. Os símbolos religiosos são numerosos. Soberbamente feitos, variando os métodos de animação, os filmes de Patlabor também são o contraponto de um Gundam ou um Macross apresentando a tecnologia de robôs como uma ferramenta útil para os seres humanos, mais do que uma arma de guerra. Quando Patlabor 2 (1993) chega, ele surpreende pelo seu roteiro audacioso: os personagens principais da primeira obra tornam-se secundários e vice-versa. Oshii pinta soberbamente um Japão futurista vivendo na constante ansiedade de um conflito, nascido de uma vingança provocada por um erro militar da burocracia nacional.

Mamoru e sua equipe não só estabeleceram a cidade de Patlabor como um local, mas para desenvolver o tema guerra ela tem efeitos diretos sobre a sociedade. Em determinado ponto da historia, os soldados tem que se mudar para a cidade, e para controlar as cenas é usado: simetria visual. Recebemos uma grande quantidade de layouts simétricosOs planos apresentam aspectos da cidade e aspectos da guerra. Esses elementos visuais mostram como os soldados se tornaram parte da cidade, e como a sociedade se adaptou para comoda-los. De um lado da tela há pessoas trabalhando em seus escritórios, e do outro vemos helicópteros militares voando. Isso permite que você desenvolva o tema da guerra dentro da sociedade sem ter que empurrá-lo através de diálogos.

Ghost in the Shell, como muito já foi falado em diferentes mídias, também revestiu a sua cidade com personalidade. Temos por exemplo, os planos em que as ruas estão saturadas de água da chuva, zumbindo, como se elas estivessem vivas, pulsando. Ou o shot em que um barco respira enquanto viveele se movimenta como se estivesse respirando. Até mesmo o avião do início do filme imita o vôo de um pássaro. Tudo em completa conformidade com a noção de vida (artificial) e unidade de GITS.
Oshii coloca em suas obras um trabalho com incrível beleza plástica, com um senso inato de hipnotização, e uma animação de grande fluidez, mas os seus pesos só existem enquanto enquadrados dentro de sua narrativa. Um casamento entre visual e substancia, onde o visual se torna irrefutavelmente substância. Suas obras exalam um sentimento particular em cada esquina, uma dor que gangrena tanto metal quanto carne, tanto arquivos de computador quanto sinapses humanas. Shows dotados de uma incrível maestria e poesia flutuante, são trabalhos, em sua grande maioria, totalmente depressivos que nos submergem em uma narrativa filosófica que espalha seu baço entre a violência destrutiva e a solidão contemplativa penetrante.

Ao tecer essas duas narrativas juntas - visual e script - Oshii enfatizar os pontos fortes de cada uma delas, seus trabalhos são capazes de emocionar em termos viscerais respaldados por impacto emocional em basicamente todos os pontos. 

No final, a proeza do Oshii por narrativas fortes e intransigentes e a dedicação de seus colaboradores em vê-los ganharem vida, criaram obras que concatenavam escrita e arte. São meditações fascinantes sobre a natureza da realidade, a espiritualidade e a natureza da humanidade. Mamoru Oshii, diretor de uma vasta visão artística, usa a mídia cinematográfica e anime não apenas para expressar seus pensamentos pessoais, mas também para abrir portas para mundos até então nunca vistos. Mundos concebidos com tamanha introspecção que eles se voltam para si mesmos. Um orgulhoso cofre, acessível apenas para aqueles que se deslocam para lá. (Becos escuros mergulhados em uma arrebatadora decadência.) Como uma pessoa tímida recolhida em si, seus programas implodem quando são alcançados. Minas de ouro artísticas. Pinturas feitas com a "tinta da alma" de um verdadeiro artista. O tipo de arte que rechaça os espectadores mais impacientes.
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